“As empresas vão depender mais do compliance”

earthEm 2005, o consultor alemão Erich Schumann, então trabalhando no BankBoston nos Estados Unidos, foi chamado pelo novo presidente do estatal Banco Del Progreso, na República Dominicana. O executivo foi direto: “preciso que você investigue o banco, acho que há uma fraude de US$ 20 milhões”, disse ele ao consultor. Cinco dias depois, Schumann voltou ao executivo. “Achei a fraude”, disse ele. “Mas não são US$ 20 milhões, são US$ 480 milhões.” O banco havia sido lesado pelo executivo Pedro Castillo, que o presidiu por quase dez anos. Foi a maior, mas não a primeira fraude descoberta por Schumann que, desde então, aconselha as empresas na maneira de evitar perdas. Ele falou com a DINHEIRO:

Há fraudes em todas as organizações?

Há tentativas de fraudes em todas as organizações, o que muda é se elas são bem-sucedidas e a capacidade de evitá-las. Para isso, é preciso ter regras claras.

Por que esses problemas ocorrem?

É sempre para beneficiar alguém e prejudicar os demais acionistas ou a sociedade. Há dois grandes tipos de fraude. No primeiro, a pessoa simplesmente rouba dinheiro. No segundo, ela altera os registros para esconder prejuízos ou a criar lucros fictícios, de modo a elevar os bônus por desempenho e os dividendos aos acionistas.

Quem desvia recursos?

Minhas pesquisas mostram que, nas empresas, há três tipos de pessoas: 20% jamais vão cometer uma fraude, 20% com certeza vão tentar cometer uma fraude e 60% seguem a maneira de proceder do superior imediato. Assim, se o presidente de uma empresa desvia dinheiro, você terá 80% dos funcionários tentando desviar recursos também: os 20% que são naturalmente mal-intencionados e os 60% que seguem o chefe.

Quais são os indícios de que uma pessoa está fazendo algo errado?

A maneira mais eficaz de detectar que um funcionário está fraudando a empresa é se ele apresentar mudanças súbitas de comportamento. Por exemplo, o funcionário que sempre trabalhou até as cinco da tarde e passa a trabalhar até as dez da noite, quando não há mais ninguém no escritório. O que ele fica fazendo? Se a empresa tiver comprado uma concorrente e ele tiver de fazer horas extras, sem problema. Caso contrário, é bom alguém começar a perguntar por que ele trabalha tanto.

Como o Sr. descobriu a fraude no Banco del Progreso?

Costuma-se dizer que, nos filmes, o culpado é o mordomo. Nos esquemas de corrupção, o culpado, que pode ter participado ativamente ou apenas ter cumprido ordens, é sempre quem faz a contabilidade. Isso é imutável: sempre há alguém responsável por atualizar as planilhas, e é essa pessoa que vai me fazer resolver o problema. No caso do banco, eu conversei com uma pessoa da contabilidade que se reportava diretamente ao presidente anterior. Era uma senhora, com muitos anos de banco. Eu disse a ela: “você não tem mais seu chefe para te proteger, e a responsabilidade pelo desvio de dinheiro vai ser sua.” Ela me entregou uma pilha de pastas com todos os documentos comprovando a fraude.

É possível acabar com a fraude? Como?

Sim, é possível reduzir as fraudes. Basta estabelecer regras claras de atuação, e investir na fiscalização e no compliance. Mas isso não vai adiantar se o exemplo não vier de cima. Tem de ser uma decisão da cúpula da empresa, não aceitar corrupção, dizer que não há tolerância com a corrupção e punir duramente quem for corrupto.

Esses problemas estão aumentando ou diminuindo?

Aumentando, especialmente devido ao crescimento das transações eletrônicas. A informática é uma ferramenta essencial para o crescimento das empresas e do setor financeiro, mas ela cria mais oportunidades para os fraudadores. Não só os hackers, mas também pessoas mal-intencionadas de dentro da corporação, que conhecem os sistemas. Por isso, as empresas vão depender mais do compliance para evitar as fraudes.

Como o Sr. vê a situação no Brasil?

O Brasil, infelizmente, é conhecido como um país em que há corrupção no governo e nos negócios. Mas isso não é um problema exclusivamente brasileiro. Corrupção e fraudes existem em todos os países, desde as democracias do norte da Europa até as piores ditaduras africanas. Em alguns lugares a corrupção é mais aberta, em outros ela é mais elegante. Mas é um problema global.

Como acabar com a corrupção no Brasil?

Da mesma forma como em outros países. As empresas terão de assumir uma postura clara e dizer “não vamos fazer negócios onde houver corrupção, não vamos subornar políticos e governantes para ganhar contratos”, mesmo que isso signifique perder negócios. O Brasil é um país enorme, com milhões de oportunidades de ganhar dinheiro honestamente. Há muitas companhias que são honestas e ganham dinheiro sendo assim. Não dá para dizer que o país inteiro é desonesto.

(Fonte: Istoé Dinheiro)

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