Arquivos da categoria: Gestão do Esporte

O Maracanã morreu!

Não é o mesmo estádio. O mesmo ambiente. O mesmo espírito. Apenas um novo estádio – estádio não, arena. Arena esta construída no mesmo lugar e, para disfarçar a radical mudança, com a mesma estrutura externa e o nome, mas… o velho Maracanã está morto e seu espírito com ele se foi.

Vivi as três fases do Maraca:

Quando, oficialmente, 200.000 pessoas se espremiam em qualquer espaço.

Testemunhei as folclóricas comemorações que Geraldinos faziam à beira do campo, e a festa dos Arquibaldos ocupando quase todo o anel.

Quando em 2005 acabaram com a geral.

Mantiveram a estrutura das arquibancadas e alguns Geraldinos tentaram se transformar em Arquibaldos. Alguns conseguiram, mas a essência dos Geraldinos havia acabado.

Quando em 2014 acabaram com a arquibancada.

É, acabaram. Porque essa estrutura, em rampa descendo até o campo com cadeiras dobráveis, não lembra nem de perto a nossa velha e querida arquibancada.

 

Nós, torcedores, ainda buscamos nosso espaço, tentando nos adaptar aos novos setores e às novas regras para torcer impostas pela PM e pela FIFA.

Alguns vão dizer que estou sendo saudosista, que isso é a evolução do futebol. Entendo. Mas…

É preciso fazer algo para que o estádio, desculpe, arena, recupere ao menos um pouco da alma do antigo Maracanã que está perdida no limbo, talvez vagando pelo Umbral. Essa alma precisa reencarnar nessa fria, insípida, incolor, inodora, inacústica arena, trazendo de volta ao menos um pouco do que havia no passado recente, do calor das festas das torcidas, da interação com os jogadores.

Voltar a torcer sem limites de bandeiras ou instrumentos musicais; atirar papel higiênico no momento que os times entrarem em campo em separado; retirar as cadeiras dos setores superiores (norte e sul), para que nós, Arquibaldos, voltemos a nos sentir como no antigo estádio; autorizar jogadores a comemorar junto da torcida subindo os degraus e abraçando a galera e claro, precisamos trazer os Geraldinos de volta, com uma espaço específico, ao qual eles teriam acesso por um valor que qualquer torcedor apaixonado, mas sem muita grana, poderia pagar.
O Estádio do Maracanã morreu! Vida longa à Arena Maracanã!

 

Autor: Fred Mourão

Coordenador do curso de MBA em Gestão e Marketing Esportivo da Trevisan Escola de Negócios, na unidade Rio de Janeiro

Torcidas Organizadas ou Torcidas Profissionalizadas?

Qual a diferença entre assistir a uma partida de futebol na Tv em casa, no bar, sozinho, com amigos, ou estar no estádio?

Qual a diferença, em emoção, de assistir pela Tv um jogo do campeonato brasileiro, alemão, inglês, americano ou chinês?

Sem festa, sem torcida, não há diferença. Ou melhor, há diferença sim. Começa a ser melhor assistir em casa, pois não preciso me deslocar, tem tudo na geladeira, o conforto do meu sofá….

Ir ao estádio assistir a uma partida de futebol precisa continuar sendo uma experiência única.

O clima da partida está no ar ainda fora do estádio. A energia flui. Os gritos. As músicas. A festa. O momento onde o nome de cada jogador é citado pelo locutor do estádio e repetido pela torcida. A entrada em campo. O foguetório. Os rolos de papel higiênico sendo atirados. As bexigas coloridas. As bandeiras tremulando. A batucada ditando o ritmo. O hino sendo entoado. As palmas ritmadas. Os braços erguidos. A comemoração do gol. A festa da vitória.

Visualizou?

Então, agora, retire tudo isso.

O estádio se transforma num teatro. A emoção existe, mas não é extravasada. Fica contida. Acontece somente no momento do gol, com palmas.

 

Proibindo as Torcidas de entrar no estádio, com todo ou parte do seu material, a Policia Militar, o Ministério Público e o STJD – Superior Tribunal de Justiça Desportiva – estão prestando um desserviço ao futebol brasileiro. Até porque esse tipo de generalização enfraquece as Torcidas do bem.

Uma solução para quando algum ato de violência acontecer no estádio, e seu executor for identificado, é o que fez recentemente a Comissão Antiviolência na Espanha quando multou em R$10 mil e proibiu de acessar o estádio por seis meses um torcedor de 17 anos que arremessou uma garrafa no Neymar durante uma partida, solução que pode ter a pena agravada de acordo com a gravidade do ato ilícito.

Aqui, o estado é incompetente, não consegue punir o verdadeiro culpado, não consegue fazer com que cumpra a pena de não acessar estádios, e o que faz? Penaliza toda a Torcida pelo comportamento de uma pessoa ou de um grupo. É como um morador assaltar um apartamento no prédio onde mora e a justiça condenar os moradores a não usarem o elevador e a garagem por alguns meses.

 

A Torcida é um BEM necessário. Eles se reúnem muito antes de cada partida para organizar a festa que vamos desfrutar no estádio, separar os instrumentos, costurar, pintar ou recuperar as bandeiras que vão bailar no ar durante a partida, preparar as faixas, mosaico, comprar rolos, encher as bexigas.

Essas pessoas, dedicadas, apaixonadas pelos seus clubes, são essenciais para a festa.

 

O que precisa ficar claro é que, se buscamos a profissionalização dos clubes, dos juízes, da administração dos estádios, devemos também buscar a profissionalização das Torcidas como entidades sem fins lucrativos e com sua prestação de contas aberta.

A saída ideal seriam os clubes trabalharem com elas, em conjunto, de uma maneira profissional, não as financiando com dinheiro do clube ou de patrocinadores, mas ajudando-as a obter todo o material necessário para a festa, a entender que a festa que fazem tem um valor e é preciso capitalizar esse valor. São bandeirões, camisões, mosaicos, faixas, bexigas, que podem vir com a marca de um apoiador ou um patrocinador que faria a compra dos materiais e aluguel do transporte para viagens pagando direto ao fornecedor, ou seja, patrocinariam determinadas Torcidas comprometidas, antes de tudo, com a paz nos estádios.
O clube poderia ajudar nessa profissionalização com o know how em negociações com patrocinadores, na estruturação e transparência de contas e até desenvolver um plano de Sócio Torcedor específico para Torcidas.

Obs.: Na verdade, no Flamengo, tivemos um diálogo aberto e contínuo com as principais torcidas, conseguindo em alguns momentos pontuais apoio de patrocinadores e lançando um plano específico de Sócio Torcedor.

 

Autor: Fred Mourão

Coordenador do curso de MBA em Gestão e Marketing Esportivo da Trevisan Escola de Negócios, na unidade Rio de Janeiro

Resgatando a nova geração de torcedores brasileiros do canto de sereia do futebol europeu

Andando pelas ruas de qualquer cidade brasileira, cruzamos com crianças e adolescentes vestindo a camisa de algum clube de futebol europeu.

Famílias inteiras, mulheres, crianças e adolescentes, cada vez se sentem mais atraídos por times do “velho” continente repetindo, de certa forma, o comportamento que ainda existe em vários estados do Norte, Nordeste, Centro Oeste e até do Sul do país, onde até hoje torcedores se envolvem mais com equipes do Sudeste do que com os clubes de sua cidade ou estado.
As transmissões pela Tv, por conta do fuso horário europeu, acontecem durante a semana no horário da tarde, no qual crianças e adolescentes estão disponíveis em casa, nas ruas ou no clube, enquanto isso, os jogos de meio de semana, de maior apelo dos campeonatos no Brasil, são transmitidos às 22 horas terminando próximo à meia noite, o que inviabiliza às crianças de acompanhá-los e de desenvolver o hábito de ver nosso futebol.

No fim de semana, enquanto os jogos europeus continuam sem praticamente nenhuma concorrência no mercado nacional, acontecendo a partir das nove da manhã e seguindo até o fim da tarde, os jogos locais são transmitidos na noite de sábado, quando as crianças estão com suas famílias e os jovens com os amigos, ou no fim da tarde de domingo, único horário em que realmente todos estão disponíveis.

Vemos claramente que o futebol europeu está seduzindo os jovens fãs brasileiros da mesma forma que os times do Rio de Janeiro, quando capital do Brasil, seduziam os torcedores de quase todo o país por conta da Rádio Nacional.
Além de gradativamente buscarmos um reencaixe da programação da Tv para não continuarmos perdendo a nova geração para os europeus, transmitindo os jogos de quarta às 21h, tendo alguma partida relevante na tarde de quarta e/ou quinta no lugar da Sessão da Tarde, ampliando um pouco mais os horários de sábado e domingo para, literalmente, batermos de frente com as transmissões de fora, precisamos também atrair essas crianças e jovens de volta ao estádio onde, ali sim, somos imbatíveis.
A atmosfera do estádio, a festa nas arquibancadas, as bandeiras, os cânticos, a batucada, a entrada do time em campo, a energia durante a partida, a comemoração dos gols, ou seja, tudo que envolve uma partida de futebol dentro do estádio fazem aquelas duas horas únicas, sedutoras. Ali sim, no estádio eles sentem a presença e a energia do time.
Os adolescentes e crianças assistem e interagem com a festa, com seus times e seus ídolos, se sentindo parte do clube do coração e, somente assim deixarão de lado os times europeus os quais eles só podem, na grandessíssima maioria das vezes, assistir pela Tv.
Claro que precisamos melhorar os acessos, facilitar o transporte, cuidar da segurança fora e dentro do estádio para que os pais se sintam seguros em trazer seus filhos para as partidas.
Além de tudo isso, temos que criar pacotes com preços família, com espaço de estacionamento e áreas específicas no estádio, exatamente como faz o Tottenham Hotspurs, um dos clubes europeus que visitei em 2013.
Com todos esses cuidados, e a repetição ad nauseum desse padrão, em pouco tempo os pais se sentirão confortáveis e seguros em trazer seus filhos e filhas, e esses se engajariam cada vez mais no espírito de torcedor do seu clube de coração.
É uma guerra de mercado, e precisamos cuidar do nosso.

 

Autor: Fred Mourão

Coordenador do curso de MBA em Gestão e Marketing Esportivo da Trevisan Escola de Negócios, na unidade Rio de Janeiro

Acesso aos torcedores de baixa renda

O futebol não é mais aquele futebol romântico que existia até o fim dos anos 80, quando os jogadores muitas vezes dedicavam toda sua carreira a apenas um clube. O futebol se transformou, se profissionalizou e agora envolve somas milionárias, com compra de direitos econômicos de jogadores, direitos de imagem, altos salários, investimentos em formação, em estrutura, acompanhamento médico e psicológico, mídia training, entre vários outros fatores que buscam desenvolver todo o potencial de cada atleta.
Para cumprir esses requisitos é preciso arrecadar, e todas as fontes precisam ser maximizadas. As cotas de televisionamento, a fornecedora de material esportivo, o espaço no uniforme, licenciamento de produtos, programa de sócio torcedor e, naturalmente, a renda de bilheteria. Não há como abrir mão de nenhuma receita.
É preciso administrar para todos sem perder receita e sem ser populista. Então, como conciliar a necessidade de arrecadar, mantendo as contas em dia, tendo um orçamento equilibrado para investir em novas contratações de peso, na formação de novos atletas na base, manter um time competitivo e trazer os apaixonados torcedores de menor poder aquisitivo novamente para o estádio?
Como manter o equilíbrio das receitas da partida cobrando mais barato por esses ingressos?

Como garantir que esse torcedor comprará o ingresso e entrará no estádio?

O que o impediria de revendê-lo por um preço maior?

E mais, como ele comprovaria sua situação econômica?
Antes de mais nada é essencial buscar o equilíbrio da receita, subsidiando esse ingresso através do aporte de algum patrocinador e/ou repassando o valor descontado para os ingressos de outros setores.

O passo seguinte é a venda e garantia de acesso a esse público.

Vender ingresso na entrada no estádio, com o torcedor comprando e entrando, sem a possibilidade de revender, garantiria o funcionamento do projeto, mas poderia causar tumulto nesse acesso com centenas de torcedores tentando comprar e entrar.

Então, para evitar esse possível tumulto na entrada, vender ingresso antecipado, nominal e intransferível, com acesso em separado seria uma solução.
E para garantir que somente o torcedor de menor poder aquisitivo tenha acesso a esse ingresso subsidiado, a melhor saída seria desenvolver um cadastro desses torcedores.
Já para os torcedores que não participam do projeto sócio torcedor, frequentam os estádios e gostariam de garantir seu acesso aos jogos mais importantes, onde provavelmente as vendas esgotariam ainda online, estes deveriam comprovar frequência em um determinado número de partidas, guardando os canhotos dos ingressos, e garantindo assim um desconto para compra em alguma partida mais concorrida. Dessa forma, os torcedores fieis, mas que não participam do projeto sócio torcedor, teriam a possibilidade de estar no estádio em jogos de grande demanda.
Ou seja, são soluções para os que frequentam todos os tipos de jogos sem serem sócios torcedores e gostariam de poder comprar uma semi ou final, e para os de menor poder aquisitivo terem a oportunidade de estar presentes acompanhando seu time do coração.

 

Autor: Fred Mourão

Coordenador do curso de MBA em Gestão e Marketing Esportivo da Trevisan Escola de Negócios, na unidade Rio de Janeiro

 

Tendências de Evolução no Futebol

Acreditamos que o futebol brasileiro (como evento), para voltar a ser competitivo com o futebol Europeu e futuramente o Norte Americano, num futuro não tão distante assim. Devemos passar por mais duas etapas, considerando que estamos na primeira. E com isso conseguir os melhores resultados em todos os aspectos.

Essa transformação deve ser de forma evolutiva e construtiva, onde terão destaque, os clubes que conseguirem desenvolver e implantar um Planejamento Estratégico, visando resultados através de ações nas esferas de Gestão, Marketing e Esportes. Esferas estas baseadas em 03 pilares, estes para outra discussão, são eles: A Estrutura Física, a Gestão Corporativa e os Resultados, das quais aqui incluímos os Resultados Esportivos, Financeiros e Sociais. Tudo dentro de um processo empresarial da qual considera o sistema: Causa-Efeito.

Citamos abaixo as 03 (três) Etapas, que consideramos neste estudo:

1.Futebol – COMPETIÇÃO: Modelo Atual, com todos seus problemas voltados exclusivamente no processo de competição da qual alguns pontos são observados como: cada um luta por si só, com sua capacidade e posicionamento; é a individualização do sistema e quem pode mais chora menos. Este sistema tende a criar uma divisão e um distanciamento entre os clubes. Mesmo assim, este distanciamento será sempre suprido por outros clubes através de “ação momentânea”, criada através de alguns pontos de pouca duração como: plantel melhor ou com mais tempo junto, estrutura e planejamento de competição, atletas como destaque, comissão técnica, diretoria, através de ações e recursos temporários, não efetivos, de médio e longo prazo. Aqui aparecem os destaques individuais ou até mesmo a formação do grupo. Desta forma os pilares iniciais (capacidade e posicionamento) acabam não influenciando diretamente nos resultados com freqüência. Fica evidente quando verificamos os campeões, há uma diversidade de times. Ponto de Interesse: Atletas, Direção Técnica e Torcedores.   

2. Futebol – NEGÓCIOS: Primeira evolução do sistema,há um novo conceito, e a definição de “time” para “clube”, onde surgem outros departamento e setores como uma importância destacada durante as competições, há uma preparação dentro e fora do campo esportivo. Há novos interesses e necessidades e com isso o clube se prepara para transformar o clube de forma corporativa, trabalhando sobre 03 pontos principais: A Gestão Administrativa e Profissional, A Estrutura Física e Humana e os Resultados (Financeiros, Sociais e Esportivos). Transforma a visão do clube em Gestão de Negócios e procura transformá-lo em empresa altamente lucrativa. Ponto de Interesse: Diretoria, Gestores, Investidores e Patrocinadores.

3.Futebol – ENTRETENIMENTO: Segunda evolução do sistema, a principal e onde ocorre a mudança total do comportamento do clube em geral. É um Sistema já “estabilizado”, onde o papel do futebol passa a ser o entretenimento das pessoas e famílias e desta forma, há naturalmente uma evolução nos conceitos de competição e de evento. Ponto de Interesse: Organizadores de eventos, patrocinadores, assistentes, e todos outros atores do Processo onde cada um tem sua importância no resultado final.

Podemos verificar nesta 3ª fase – Futebol-entretenimento nos campeonatos Americanos (nas diversas modalidades esportivas) e no campeonato britânico e alemão, este último ainda num processo inicial de estabilização.

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Portanto, temos muito a evoluir são duas etapas de atraso, acredito no poder de superação do futebol brasileiro e também na necessidade imperiosa de “mudança comportamental” com Gestão Profissional, Estrutura e Resultados, objeto de um próximo artigo.

QUANTO ANTES, MELHOR!

Autor: Jeferson J. Valle

Prof. Jeferson José do Valle, especializado MBA pelo IPEP – Univ. Dallas – EUA, em Marketing e Negócios Internacionais, professor universitário há mais de 15 anos em cursos de graduação e  pós-graduação nas áreas de Administração de Empresas, Direito, Educação Física, Engenharia, Recursos Humanos, Gestão Ambiental, Marketing e Estratégia Empresarial. Coordenador Acadêmico do MBA em Gestão e Marketing Esportivo da Faculdade Trevisan.

Vale a pena o Rio de Janeiro sediar os Jogos Olímpicos? (2)

Os Jogos Olímpicos 2016 vão se aproximando da sua metade e já é possível tirar algumas conclusões. Como era esperado, o Rio de Janeiro se tornou uma grande festa esportiva, com turistas e cariocas se misturando para assistir a suas modalidades favoritas e celebrar o evento. O transporte tem funcionado relativamente bem, mas esperava-se mais da operação dos Jogos em si, ainda mais numa cidade acostumada a realizar anualmente uma festa belíssima como o Carnaval, dentre tantos outros eventos12531030_1149516881748211_1299669614_n(1) como o festival Rock in Rio. Continua havendo muitas queixas quanto à gestão das filas, tanto no acesso às arenas quanto para a compra de alimentos e bebidas, cujas qualidade e oferta também têm sido muito criticada.

De qualquer forma, o evento está acontecendo a contento. Resta saber o que ficará de retorno direto para a cidade. Se considerarmos apenas o adicional de receita que entra na economia durante a realização dos Jogos, obviamente a conta não vai fechar. O custo total relacionado à Rio 2016 deve ficar acima de R$ 40 bilhões, enquanto que a estimativa de gastos de turistas ao longo do evento é de R$ 5,8 bilhões. Não é um número tão relevante assim: só o carnaval carioca gera cerca de R$ 3 bilhões para a economia da cidade, e acontece todo ano. Assim, para que se possa tirar algum tipo de conclusão deve-se analisar o retorno potencial de longo prazo, principalmente nestes três itens: infraestrutura urbana, turismo internacional e indústria/cultura esportiva.

Em relação à infraestrutura, a realização dos Jogos acabou por canalizar investimentos para este fim, tirando da “gaveta” uma série de projetos que a cidade já precisava há vários anos. O Rio de Janeiro finalmente passa a ter uma estrutura de transporte coletivo mais adequada ao seu tamanho: foram  construídos 117 km de linhas para VLT (Veículo Leves sobre Trilhos), BRT (Transporte Rápido por Ônibus, na sigla em inglês) e metrô. Além disso, foi feito um projeto de revitalização da zona portuária localizada no centro histórico, tornado-a um novo ponto turístico e que dificilmente teria ocorrido sem a definição da cidade como sede. Há suspeitas de superfaturamento em algumas obras e dúvidas se essas novas rotas serão suficientes para resolver o problema de mobilidade urbana da cidade, mas tudo indica que este é um legado bem tangível para a população local.

Um outro potencial benefício diz respeito ao aumento do fluxo de turistas internacionais. Espera-se que a intensa exposição da cidade possa gerar interesse de estrangeiros em visitar futuramente o país. Somando a Copa do Mundo realizada em 2014, os megaeventos terão sido responsáveis por atrair mais de 1 milhão de visitantes do exterior. Além disso, o país terá ficado na vitrine internacional por quase dez anos desde que foi definida como sede da Copa. Esta é uma área que teria muito a avançar: atualmente o Brasil atrai cerca de 6,3 milhões de turistas internacionais por ano, bem abaixo por exemplo do México, que recebe quatro vezes mais.

No fim das contas, como ocorreu após a Copa do Mundo e apesar de todos os problemas locais, o saldo de imagem do país deve ficar positivo, se nada de muito grave acontecer até o final da Rio 2016. Mas é difícil saber se isso será suficiente para impulsionar a indústria do turismo internacional. É verdade que em dez anos houve um crescimento de mais de 25% no volume de desembarques internacionais, mas é difícil dizer se há alguma relação com a realização dos megaeventos por aqui. Na verdade, o número de visitantes estrangeiros até caiu em 2015, provavelmente como efeito estatístico do grande número de turistas que vieram para a Copa do Mundo no ano anterior. A ver.

No próximo post, falaremos sobre o último item: impactos para a indústria do esporte e estímulo para uma cultura esportiva no país.

Vale a pena o Rio de Janeiro sediar os Jogos Olímpicos? (1)

Começa nesta semana a 31a edição dos Jogos Olímpicos e em setembro a 15a edição dos Jogos Paralímpicos, pela primeira vez tendo como sede uma cidade da América do Sul, o Rio de Janeiro. Os Jogos são o maior evento esportivo e o mais midiático do mundo, reunindo 11 mil atletas de 206 países e atraindo 5 bilhões de espectadores. Não há muitas dúvidas de que mais uma vez será uma bela confraternização entre os povos e uma grande celebração da magia do esporte, agora tendo como cenário a cidade maravilhosa. A questão que ainda permanece no entanto é se haverá benefícios duradouros para o Rio de Janeiro em relação ao montante investido.

Até um tempo atrás era uma honra ser escolhido para sediar uma edição da Copa do Mundo ou dos Jogos Olímpicos. Ultimamente no entanto tem crescido o sentimento de que talvez não seja tão vantajoso assim. O número de candidaturas tem caído e as desistências aumentado, como ocorreram com Estocolmo, Oslo e Munique (para os Jogos de Inverno de 2022) e com Hamburgo e Boston (para os Jogos de Verão de 2024). Basicamente as populações locais consideraram que o evento não era prioridade, que os custos eram excessivos e que os benefícios econômicos eram incertos. Essa constatação levou inclusive ao Comitê Olímpico Internacional (COI) incluir na sua Agenda 2020, documento com uma série de diretrizes de modernização do movimento olímpico, que uma das prioridades é reduzir os custos de realização do evento e incentivar a utilização de estruturas esportivas pré-existentes ou temporárias.

De fato os exemplos mostram que sediar um megaevento esportivo não é certeza de legado positivo, que o otimismo dos governos ao ser escolhido é muitas vezes exagerado, e que os orçamentos de gastos são sempre subestimados (Londres-12 por exemplo teve seus custos majorados em 179%). Os resultados dependem muito das condições ali existentes e da seriedade com que o projeto é implementado. Não é a toa que existem tanto casos de extremo sucesso como Los Angeles-84 (baixo custo de implementação) e Barcelona-92 (modernização e alavancagem do turismo internacional) como de graves prejuízos como Montreal-76 (gastos exagerados e falta de planejamento) e Atenas-04 (falta de controle dos gastos e abandono das instalações).

Apesar da maioria da população brasileira ter celebrada a escolha do Rio de Janeiro como sede em 2009, atualmente a percepção dos brasileiros não é nada boa. Rio-16 vai iniciar sob grande desconfiança local: segundo pesquisa do Ibope divulgada pelo Estadão, 60% das pessoas acham que o evento trará mais prejuízos do que benefícios para o Brasil. A crise política e econômica por que passa o país, bem diferente do contexto de sete anos atrás, obviamente não contribui em nada para se ter otimismo em relação aos impactos do evento. Ainda mais tendo como sede um estado que enfrenta uma das mais graves crises financeiras do país, prevendo um déficit de R$ 20 bilhões neste ano.

Para se ter uma avaliação correta do retorno potencial de um megaevento esportivo deve se levar em conta os eventuais retornos de longo prazo e não apenas durante a sua realização. Isso porque em geral são feitos grandes investimentos em infraestrutura urbana, cujos impactos obviamente permanecem para a população local.  Além disso, há uma grande exposição do país desde o momento em que é escolhido como sede até principalmente durante a sua realização, o que pode gerar retornos futuros para a indústria do turismo.

Em linhas gerais, para a conta fechar a sede deve atender a pelo menos uma das seguintes condições: já ter infraestrutura esportiva, de hospedagem e de mobilidade urbana, reduzindo o custo de execução; ter um déficit de infraestrutura urbana que pode ser impulsionada pela realização do evento; ou ter grande potencial turístico internacional não aproveitado. O Brasil e mais especificamente o Rio de Janeiro se encaixavam nas duas últimas condições e por isso fazia sentido celebrar a decisão do COI em 2009. Vamos conferir no próximo texto se essa perspectiva ainda permanece no momento atual.

 

Torcida única em clássicos é uma falsa solução

torcida_unica_fbDesde abril de 2016 a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo determinou que os clássicos jogados no Estado tivessem apenas a torcida mandante presente. Desde então, ocorreram sete jogos deste tipo, aparentemente sem incidentes. Até que neste domingo (17/07/16), antes do jogo Corinthians e São Paulo, foi relatado um confronto. Não no estádio, mas em Carapicuíba, a 47 km do estádio.

Um dia antes, jogaram Botafogo x Flamengo no Rio de Janeiro, onde não há a obrigatoriedade de torcida única em clássicos. Houve briga entre “torcedores” e um deles foi espancado até a morte. O confronto aconteceu de manhã no bairro de Bento Ribeiro, que fica a mais de 20 km do estádio onde houve o jogo.

Na semana passada, após a derrota do São Paulo para o Atlético Nacional pela Libertadores da América, houve uma série de relatos de violência e crimes praticados no entorno do estádio, além de confronto com a Polícia Militar. Não era clássico, mas era jogo de grande volume de pessoas e praticamente de torcida única, já que não há nenhuma rivalidade latente com o Atlético Nacional e de fato as brigas não tiveram nada a ver com a torcida adversária.

É claro que não se pode sacramentar uma conclusão a partir de três fatos, mas parece cada vez mais claro que a determinação de torcida única tem impacto mínimo na redução da violência relacionada ao futebol. Ou no mínimo que há muito pouca relação entre uma coisa e outra. Sim, desde que foi implantada esta medida em clássicos em São Paulo só houve algum tipo de relato de violência em um jogo. Assim como também não eram em todos os clássicos com duas torcidas presentes que aconteciam episódios deste tipo.

No caso dos clássicos, há muitos anos que os confrontos acontecem bem distantes do estádio, às vezes muitas horas antes ou depois do jogo. Os episódios deste fim de semana mostram isso, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro. O fato de ter torcida única portanto tem pouca influência pra conter este tipo de situação. E o acontecimento no estádio do Morumbi reforça ainda mais esta tese: era jogo de uma torcida só, e pessoas vestidas com a camisa do próprio clube ou da torcida organizada praticaram os atos criminosos e de vandalismo.

A conclusão é meio óbvia mas precisa ser dita. A solução é identificar e punir os indivíduos que praticam estes atos, no mínimo impedindo-os de fato de frequentar os estádios e no máximo colocando-os na cadeia, de acordo com o crime praticado. Uma briga é uma briga, um assassinato é um assassinato, tenha sido praticado por pessoas usando a camisa de um clube ou não, em dia de jogo ou não. A determinação de torcida única é inócua para conter a violência e o único efeito dela é privar o torcedor de bem, que é a grande maioria, de seguir seu clube do coração no estádio adversário. Uma pena.

 

 

Fernando Trevisan

Responsável pela Trevisan Escola de Negócios e Especialista em Gestão da Academia LANCE!

 

Fonte: Lance.

O 1×7 começou há muito tempo

A hecatombe ocorrida no Estádio do Mineirão em 8 de julho não tem apenas uma única causa. Assim como em acidentes de avião, são erros sucessivos que geram um resultado esportivo desastroso como aquele. Sim, houve equívocos na preparação do time, na análise (ou falta de) sobre o adversário, na escalação da equipe titular, na reação dos jogadores ao longo da partida. Mas as principais causas vieram antes disso tudo, com décadas de descaso, amadorismo, arrogância e improviso na gestão do futebol brasileiro.

Em primeiro lugar, não há dúvidas de que existe um problema na base da pirâmide, ou seja, na capacidade de promoção de talentos. Essa responsabilidade deveria ser da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e suas federações coligadas, conforme rege seu próprio estatuto social: “(…) difundir, incentivar, melhorar (…) a prática de futebol não profissional e profissional, em todo território nacional”. Notadamente, a CBF se voltou muito mais para o futebol profissional e de alto rendimento, especialmente a seleção brasileira masculina, seu produto mais lucrativo, na expectativa arrogante e preguiçosa de que o solo nacional produziria craques de forma natural e ininterrupta. Em contraste, a federação alemã de futebol mantém há mais de dez anos uma rede nacional de 366 centros de formação próprios com mais de mil treinadores e 14 mil jovens, na certeza de que somente o acaso não vai proporcionar o surgimento e a lapidação de talentos e de um estilo de jogo vencedor no topo da pirâmide.

Outro ponto crucial da derrocada do futebol brasileiro diz respeito a sua estrutura de governança. Além de todas as atribuições que uma confederação esportiva deve possuir, a CBF é responsável também por gerir os campeonatos nacionais. É pouco provável que uma única entidade consiga difundir a prática esportiva, gerenciar as seleções nacionais e organizar os torneios de clubes de forma eficiente. Outros países já perceberam isso há muito tempo e criaram suas próprias ligas profissionais de clubes, como a Premier League em 1992 na Inglaterra e a Bundesliga em 1962 (!) na Alemanha, dando a seus principais produtos futebolísticos nacionais o foco necessário em termos comerciais e de competitividade. Como resultado, conseguem manter e atrair os principais jogadores do mundo a partir de um torneio muito mais organizado, de uma negociação mais profissional de direitos de transmissão e venda de patrocínios, e de uma média de público alta nos estádios. As chances de se ter uma seleção nacional moderna, com estilo próprio e de alto nível aumentam com essa divisão adequada de funções entre clubes e federação.

Por fim, a ineficiência do calendário do futebol brasileiro é outro elemento chave para explicar a decadência do nosso esporte. O excesso de jogos para os clubes grandes por conta principalmente de um torneio estadual pouco atrativo que toma um terço da temporada faz com que haja pouco tempo para preparação e treinamento, imperando o imediatismo tão propagado na nossa cultura em detrimento do planejamento e do desenvolvimento estrutural. Ao mesmo tempo, a ausência de um calendário anual para os outros cerca de 600 clubes espalhados pelo país dificulta a promoção de talentos e faz com quem milhares de potenciais jogadores busquem sustentação em outra atividade profissional.

O 1×7 de 8 de julho foi doído para todos que querem ver o futebol brasileiro sempre como protagonista. Mas pode representar o ponto de inflexão que muitos esperávamos para definitivamente rever todo o modelo de gestão do esporte no Brasil. Que possamos na Copa de 2022 olhar prá trás e agradecer aos alemães por terem nos acordado do berço esplêndido naquela fatídica tarde no Mineirão.

 

Fernando Trevisan

As Finanças dos Clubes de Futebol Brasileiros

 

Em entrevista ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre, faço um resumo da situação atual das finanças dos clubes:

COMO ESTAMOS:

  • Pela primeira vez, os principais clubes brasileiros se aproximam da marca de R$ 3 bilhões em faturamento, mais do que o dobro do valor de cinco anos atrás.
  • Esse dado positivo contrasta com outros dois aspectos bastante preocupantes: o alto nível de endividamento e a dificuldade dos clubes em registrar superávits, ou seja, gastar menos do que arrecadam.
  • Há um grave problema de gestão e uma necessidade imediata de equacionamento das dívidas, com as devidas contrapartidas dos clubes.
  • O faturamento ainda está distante do patamar da Europa, o que indica haver um potencial grande de expansão, principalmente, utilizando melhor o poder de consumo do torcedor.

FATORES DE CRESCIMENTO DA RECEITA DOS CLUBES:

  • O futebol brasileiro se aproveitou de um período de crescimento econômico importante, que foi a última década para o Brasil.
  • Além de mais empresas passarem a patrocinar clubes e campeonatos, houve um forte crescimento dos valores de direitos de transmissão, que dobraram em relação a 2010 e, hoje, representam quase metade do faturamento dos clubes.
  • Os valores de patrocínio e de direitos de TV parecem estar próximos de um teto por aqui, e o trabalho dos clubes deve se voltar cada vez mais para aumentar a arrecadação diretamente com os próprios torcedores.
  • Enquanto os europeus geram 22% da sua receita total com o que seus torcedores gastam em dias de jogos, por exemplo, no Brasil, esse número é de 8%.

ALTO CUSTO DOS SALÁRIOS: 

  • O custo com o departamento de futebol é o mais relevante dentro dos clubes, podendo chegar a 70% de sua receita.
  • A gestão dessa despesa é totalmente estratégica para a sustentabilidade financeira do clube, bem como para seu resultado esportivo.
  • O papel do gestor é encontrar a melhor relação entre a qualidade do elenco e o impacto desse custo na sua lista de despesas.
  • É importante definir políticas de teto salarial e, principalmente, identificar atletas com potencial não percebido, ou seja, que podem trazer retorno esportivo sem um custo exorbitante, a partir, por exemplo, de ferramentas de análise estatística de desempenho, cada vez mais comuns no mercado.
  • O Brasil é um país de livre mercado: não acredito em iniciativas que visem pré-definir valores de salário para o mercado do futebol.
  • Por outro lado, a atuação mais firme da Receita Federal em cima dos clubes, que tem afetado diretamente seu fluxo de caixa inclusive com penhoras, e de certa forma uma conscientização maior de alguns dirigentes, parecem indicar um novo cenário de gestão de custos dentro dos clubes.
  • Pode-se imaginar um ajuste natural de mercado nos valores recebidos por alguns jogadores e treinadores.

Há um processo em marcha de profissionalização do futebol brasileiro, mas que é ainda muito recente. Logo, há muito por fazer. Pesquisa realizada com os participantes do seminário Business FC, mostraram que 53% consideram ruim ou péssima a qualidade da gestão dos clubes. Iniciativas recentes, no entanto, indicam uma tendência positiva, como: novos estádios com padrão internacional, mobilização de jogadores para melhoria do calendário, projeto de parcelamento das dívidas com punição técnica para não cumprimento. Não é a toa, também, que 91% dos pesquisados disseram ser otimistas com o futuro do futebol no Brasil.

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