Elevação do Juro nos EUA e Reforma de Trump Deverão Impactar o Brasil

Se mudança tributária proposta pelo presidente dos Estados Unidos for aprovada, redução de impostos para indústria norte-americana afetará competitividade dos manufaturados brasileiros

Se mudança tributária proposta pelo presidente dos Estados Unidos for aprovada, redução de impostos para indústria norte-americana afetará competitividade dos manufaturados brasileiros

Federal Reserve: juro básico americano só alcançará a normalidade quando alcançar faixa de 4% ao ano

São Paulo – Mesmo que realizada de forma muito gradual pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), a elevação dos juros nos Estados Unidos – aliada a uma possível reforma tributária proposta por Donald Trump – deverão impactar o Brasil no médio prazo.

Atualmente, os juros básicos nos Estados Unidos estão entre 1% e 1,25% ao ano, para uma inflação de 1,94% em 12 meses, bem próxima da meta de 2% do Fed. As taxas dos títulos do Tesouro dos EUA para 10 anos eram cotados ontem na faixa de 2,3% ao ano.

“O impacto mais significativo para emergentes como o Brasil virá da elevação dos juros nos EUA. Será gradual e deve ser um processo longo, por todo o governo de Donald Trump (2017 a 2020) e provavelmente mais um mandato. Os investidores [globais] vão migrar seus recursos para uma economia dinâmica e em crescimento”, aponta a professora de economia da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), Juliana Inhanz.

No mercado é consenso, que quando as taxas americanas voltarem à normalidade – entre 4% e 4,5% ao ano – os grandes investidores não vão hesitar em obter bons ganhos investindo nos EUA, a maior economia do mundo e considerada a mais segura.

Ao mesmo tempo, se a reforma tributária proposta pelo presidente Donald Trump for aprovada, haverá uma redução significativa da carga de impostos da indústria. “As empresas podem voltar a produzir lá”, argumenta a professora da Trevisan Escola de Negócios e especialista em direito tributário, Elisabeth Martos.

Neste cenário, de fortalecimento do dólar (efeito juros) e da indústria americana, o Brasil se beneficiaria com a exportação de produtos primários (commodities) para os EUA, mas a competitividade da nossa indústria de manufaturados – já bastante frágil – pode ser ainda mais prejudicada.

“Isso para nós será problemático. Por causa da debilidade das contas públicas estamos num momento de revisão das isenções e benefícios fiscais à indústria nacional. Nossa pauta de exportação de industrializados é muito baixa, de qualidade igual ou inferior. Talvez iremos ver substituições maciças por produtos de uma indústria americana mais competitiva”, afirma Juliana.

Elisabeth Martos lembra que atualmente temos uma balança comercial positiva. “O cenário para nossas exportações é favorável, mas provavelmente teremos um aumento dos custos com a importação de produtos elaborados e de material intermediário”, diz.

Ela também cita nossas dificuldades em conceder incentivos à indústria local diante de déficits elevados nas contas públicas. “É necessário fazer estudos sobre a eficácia dos incentivos fiscais [à indústria], verificar se essa política está retornando em distribuição de renda e geração de empregos, ou qual é beneficiário final dessa prática, se o benefício acaba apenas como lucro nos balanços”, sugere Martos.

Num período muito recente – entre 2009 até 2015 – em alguns casos, as isenções ou benefícios fiscais concedidos para determinados setores como construção civil, automóveis e linha branca – custaram mais caro que a soma da massa salarial dos empregos gerados.

“Essa política industrial custou muito caro, surtiu efeito por um tempo, mas estamos pagando até hoje”, observou a especialista da Trevisan.

Quando aos desafios do Brasil para enfrentar esse processo de aumento dos juros nos EUA, a professora de economia Juliana Inhasz recomenda que se deve reduzir os riscos domésticos. “A crise política prejudica a aprovação de reformas. Mas é possível tornar o País mais sólido, sem ter que pagar mais por isso”, afirma.

Em outras palavras, se o Brasil conseguir aprovar reformas como a da previdência e a tributária, fazer privatizações e cumprir o teto das despesas do governo poderá transmitir confiança aos investidores. “Isso sinalizará que somos uma economia forte que voltará a crescer”, argumenta Juliana.

Para competir com a elevação das taxas do Tesouro americano, outro caminho – sem subir os juros nominais no Brasil – é manter a inflação controlada. “Se eleva os juros reais para atrair capital internacional”, diz a professora.

Em geral, ela avisa que os efeitos do aperto da política monetária do Fed serão mais negativos, do que positivos para emergentes. “O crédito para captações [em bônus para empresas] ficará mais caro, e veremos um encarecimento das importações”, resumiu Juliana.

Final de um ciclo

Em números, o mundo em crescimento marcará o fim da era dos juros baixos nas principais economias. Na Europa, a taxa está próxima de zero; no Japão está negativa em 0,10% ante inflação anual de 0,60%.

Na Grã-Bretanha, a taxa está em 0,25% para preços girando em 2,87% em 12 meses. No Canadá, a inflação está na casa de 1,40% para uma taxa de 1%. Enquanto entre os emergentes, a Rússia paga 8,5% ao ano, e a África do Sul, 6,75% ao ano.

Ernani Fagundes

Fonte: GS Notícias

Deixe uma resposta