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O 1×7 começou há muito tempo

A hecatombe ocorrida no Estádio do Mineirão em 8 de julho não tem apenas uma única causa. Assim como em acidentes de avião, são erros sucessivos que geram um resultado esportivo desastroso como aquele. Sim, houve equívocos na preparação do time, na análise (ou falta de) sobre o adversário, na escalação da equipe titular, na reação dos jogadores ao longo da partida. Mas as principais causas vieram antes disso tudo, com décadas de descaso, amadorismo, arrogância e improviso na gestão do futebol brasileiro.

Em primeiro lugar, não há dúvidas de que existe um problema na base da pirâmide, ou seja, na capacidade de promoção de talentos. Essa responsabilidade deveria ser da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e suas federações coligadas, conforme rege seu próprio estatuto social: “(…) difundir, incentivar, melhorar (…) a prática de futebol não profissional e profissional, em todo território nacional”. Notadamente, a CBF se voltou muito mais para o futebol profissional e de alto rendimento, especialmente a seleção brasileira masculina, seu produto mais lucrativo, na expectativa arrogante e preguiçosa de que o solo nacional produziria craques de forma natural e ininterrupta. Em contraste, a federação alemã de futebol mantém há mais de dez anos uma rede nacional de 366 centros de formação próprios com mais de mil treinadores e 14 mil jovens, na certeza de que somente o acaso não vai proporcionar o surgimento e a lapidação de talentos e de um estilo de jogo vencedor no topo da pirâmide.

Outro ponto crucial da derrocada do futebol brasileiro diz respeito a sua estrutura de governança. Além de todas as atribuições que uma confederação esportiva deve possuir, a CBF é responsável também por gerir os campeonatos nacionais. É pouco provável que uma única entidade consiga difundir a prática esportiva, gerenciar as seleções nacionais e organizar os torneios de clubes de forma eficiente. Outros países já perceberam isso há muito tempo e criaram suas próprias ligas profissionais de clubes, como a Premier League em 1992 na Inglaterra e a Bundesliga em 1962 (!) na Alemanha, dando a seus principais produtos futebolísticos nacionais o foco necessário em termos comerciais e de competitividade. Como resultado, conseguem manter e atrair os principais jogadores do mundo a partir de um torneio muito mais organizado, de uma negociação mais profissional de direitos de transmissão e venda de patrocínios, e de uma média de público alta nos estádios. As chances de se ter uma seleção nacional moderna, com estilo próprio e de alto nível aumentam com essa divisão adequada de funções entre clubes e federação.

Por fim, a ineficiência do calendário do futebol brasileiro é outro elemento chave para explicar a decadência do nosso esporte. O excesso de jogos para os clubes grandes por conta principalmente de um torneio estadual pouco atrativo que toma um terço da temporada faz com que haja pouco tempo para preparação e treinamento, imperando o imediatismo tão propagado na nossa cultura em detrimento do planejamento e do desenvolvimento estrutural. Ao mesmo tempo, a ausência de um calendário anual para os outros cerca de 600 clubes espalhados pelo país dificulta a promoção de talentos e faz com quem milhares de potenciais jogadores busquem sustentação em outra atividade profissional.

O 1×7 de 8 de julho foi doído para todos que querem ver o futebol brasileiro sempre como protagonista. Mas pode representar o ponto de inflexão que muitos esperávamos para definitivamente rever todo o modelo de gestão do esporte no Brasil. Que possamos na Copa de 2022 olhar prá trás e agradecer aos alemães por terem nos acordado do berço esplêndido naquela fatídica tarde no Mineirão.

 

Fernando Trevisan