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“Power to the people”

O futebol brasileiro nunca gerou tanto dinheiro para os clubes. A receita aumentou num ritmo bastante acelerado nos últimos dez anos, devendo alcançar cerca de R$ 3 bilhões em 2012, segundo estudo do consultor Amir Somoggi. Esse avanço, no entanto, não impediu que o nível de endividamento desses mesmos clubes crescesse quase quatro vezes no período, chegando a incríveis R$ 4,7 bilhões. Ou seja, os avanços obtidos na captação de maiores e novas receitas não foram acompanhados por um processo de profissionalização das estruturas de gestão que permitisse uma situação financeira mais confortável e sustentável. Além disso, o faturamento ainda está distante do patamar da Europa, o que indica haver um potencial grande de expansão, principalmente utilizando melhor o poder de consumo do torcedor.

O salto das receitas no Brasil deu-se basicamente por conta dos valores das cotas de patrocínio e das vendas dos direitos de transmissão. Esses dois itens juntos representavam em média um terço da arrecadação total dos clubes cinco anos atrás; hoje já significam mais da metade. Com exceção do que é obtido com as transferências de atletas, todos os demais recursos advêm diretamente dos aficionados: bilheteria, programas de sócio-torcedor e produtos licenciados. São exatamente essas fontes vinculadas ao que há de mais valioso para um clube — a fidelidade de seu torcedor — que não se desenvolveram como poderiam nos últimos anos.

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que ainda estamos muito distante do patamar de receita da Europa. Os dez maiores clubes daquele continente arrecadaram na temporada 2011/2012 quase cinco vezes mais do que os dez principais do Brasil, segundo o estudo Deloitte Football Money League 2013. Dados ainda não oficiais de 2012 indicam que o maior clube brasileiro em termos de faturamento deve aproximar-se apenas do 17º do ranking europeu, o Lyon da França. E isso mesmo levando em conta o forte aumento dos valores dos direitos de transmissão ocorrido em nosso país, cuja renegociação recente propiciou ao Corinthians, por exemplo, um crescimento de 100% nessa fonte de receita de um ano para o outro.

Por outro lado, a taxa de crescimento das receitas no Brasil tem sido muito mais alta do que na Europa. Os top 10 clubes nacionais aumentaram em 23% suas receitas no último ano; na Europa esse índice foi de apenas 12%, e dois dos dez maiores do continente tiveram inclusive queda, o que não aconteceu com nenhum dos brasileiros. Porém, se os valores de patrocínio e de direitos de transmissão parecem estar próximos de um teto por aqui, o trabalho para aumentar a arrecadação diretamente com os próprios torcedores ainda engatinha. Enquanto os europeus geram 22% da sua receita total com o que seus torcedores gastam em dias de jogos, por exemplo, no Brasil esse número é de 8%.

Dois movimentos recentes sinalizam uma possibilidade concreta de reversão desse quadro:

  • Melhoria dos estádios: a possibilidade real de atrair mais torcedores para os estádios a partir de instalações esportivas mais modernas, adequadas, seguras e confortáveis.

O maior produto atual do cenário futebolístico brasileiro, o Campeonato Brasileiro, atraiu menos de 13 mil pessoas por jogo em 2012, deixando vazia mais da metade do estádio. E o pior é que nos últimos dez anos esse número nunca passou de 18 mil, enquanto na Inglaterra o público médio é de 34 mil, o que significa 92% de ocupação. Os 14 estádios que estão sendo reformados ou construídos no momento a partir de padrões internacionais de qualidade tornarão estes espaços muito mais atraentes para o torcedor, o que pode indicar, finalmente, um aumento na presença de público. Se obviamente esse não é o único fator de atração, pelo menos é uma variável relevante e capaz de produzir impacto positivo.

  • Programas de sócio-torcedor: ampliar a base de membros dos programas desenvolvidos pelos clubes por meio de parcerias e aumento dos benefícios.

Além de vários clubes terem lançado e impulsionado os seus programas nos últimos tempos, foi criado este ano o projeto “Movimento por um Futebol Melhor”, por um grupo de empresas varejistas, que visa conceder descontos nos seus produtos para os participantes dos programas de sócio-torcedores de pelo menos 22 clubes.  O objetivo do movimento é audacioso: aumentar o número de sócios-torcedores dos atuais 350 mil para 3,5 milhões até 2015, injetando um adicional de R$ 1 bilhão por ano nos cofres dos clubes. E, é claro, tornando estes consumidores fiéis a suas marcas e produtos.

Se incluirmos nesse cenário o desenvolvimento do mercado de produtos licenciados, que também parece finalmente entrar em marcha no País, teremos certamente um aumento da arrecadação dos clubes com o seu torcedor. Por consequência, haveria uma distribuição mais equilibrada entre as diferentes fontes de receita, diminuindo a dependência em relação a patrocinadores e detentoras dos direitos de transmissão e aumentando a importância do valor do torcedor dentro das finanças dos clubes. Naturalmente, os clubes passarão a dar mais atenção exatamente para aquele que é de fato o seu maior patrimônio – o torcedor, e contribuindo para um panorama mais virtuoso para a indústria do futebol brasileira.