As causas da Corrupção

A corrupção organizacional é um fenômeno de natureza sistêmica, pode ser vista de muitas formas, sendo que com os escândalos envolvendo a Petrobrás, há uma tendência míope de enxergá-la de maneira “personificada” e, por que não dizer “demonizada” na imagem de algumas figuras políticas e de diretores da estatal. A ideia aqui não é de defende-los, aliás muito pelo contrário, mas não podemos cair na ingenuidade de tratar o fato de maneira isolada e sem entender todo seu contexto.
A mensuração da corrupção é complexa e controversa, os dados disponíveis, ainda assim, permitem compreender melhor o fenômeno. Segundo o último relatório da ONG Transparência Internacional, em 2014 o Brasil ocupou a 72ª posição no ranking do Índice de Percepção de Corrupção (IPC), entre 177 países. Desde a primeira edição do relatório, o Brasil sempre esteve em posição similar, o que não confere a ele o irônico e lamentável “título” há tempos. A questão é como podemos, como nação, almejar posições melhores?
Uma maneira é “cortar o mau pela raiz”, em outras palavras, é cortar a fonte da corrupção: o Corruptor. Em 29 de janeiro de 2014 entrou em vigor no Brasil a Lei 12.846/2013 que dispõe sobre a responsabilização administrativa e civil de pessoas jurídicas pela prática de atos contra a administração pública, nacional ou estrangeira, com o objetivo de atender os compromissos internacionais, sendo que prevê duras penas às empresas que pagarem suborno a agentes públicos. Infelizmente, após o primeiro aniversário da Lei Anticorrupção Brasileira, como é chamada, ainda não existe sua regulamentação e nenhuma punição foi aplicada até o momento.
Uma outra tentativa eficaz para mitigar a corrupção é tratar a sua dimensão humana. A utilização de ferramentas de compliance, termo anglo-saxão originário do verbo comply, cujo sentido é agir de acordo com uma regra, um pedido ou um comando, pode gerar bons frutos nas organizações, sejam elas públicas, privadas ou do terceiro setor.
A dimensão humana da corrupção é a sua causa, pois na sua raiz está a percepção moral do indivíduo quando exposto aos dilemas éticos. Por esse prisma, discutir “integridade” é discutir o quanto o indivíduo compreende o contexto e pauta suas atitudes na perspectiva moral é compreender a conduta de acordo com a regra (compliance) ou a fraudulenta, sendo influenciada pelas circunstâncias.
As organizações precisam identificar a potencialidade de resiliência de seus profissionais quando se depararem com dilemas éticos no exercício de suas atividades profissionais e, com isso, buscar soluções de desenvolvimento dessa resiliência, contribuindo com a mudança na forma de tratativa da dimensão humana da corrupção, não mais apenas em um modelo reativo, mas em um modelo de prevenção e promoção, baseado nas potencialidades e recursos que o ser humano tem em si mesmo e no contexto a que se encontra.
Resiliência significa retornar a um estado anterior, utilizada pela Física, para definir a capacidade de um corpo físico voltar ao seu estado normal, depois de haver sofrido uma pressão sobre si. Nas Ciências Sociais, esse conceito tem sido utilizado para descrever a capacidade de um indivíduo ou grupo de indivíduos, mesmo num ambiente desfavorável, de se construir ou se reconstruir positivamente frente às adversidades.
Desenvolver a resiliência em seus profissionais não é gerar invulnerabilidade ao sistema a que está inserido, mas é a relação em que o indivíduo tem com o risco a que está vulnerável, bem como seu desenvolvimento quando é confrontado com a adversidade, a partir da relação indivíduo – contexto. Resiliência no contexto das organizações é a construção de soluções diante das adversidades presentes nas condições de trabalho e dos negócios da sociedade atual, da qual resulta um duplo efeito: a resposta ao problema em questão e a renovação da integridade ética do indivíduo.
A renovação da integridade ética não impõe que os interesses pessoais sejam coibidos completamente, mas que eles sejam mitigados conforme as circunstâncias concretas de uma maneira pragmática e realista. Discutindo e apresentando as vantagens em se manter a integridade, não apenas para a coletividade a qual faz parte, mas também, e principalmente, para seu próprio interesse. Essa abordagem não é apenas mais realista, mas também mais humana, uma vez que considera e respeita as necessidades do homem.
E é nisso que as organizações precisam buscar, trabalhando nas causas da corrupção e não apenas nos seus efeitos, pois caso contrário, nossos filhos, netos e futuras gerações vão sentir essa indignação que estamos sentindo, ou ainda pior, a banalidade desses atos poderão cauterizar seus sentimentos.

Renato Santos é sócio da S2 Consultoria, empresa especializada em prevenir e tratar atos de Fraude e Assédio, Coordenador do MBA Gestão de Riscos e Compliance da Trevisan Escola de Negócio e autor do livro “Compliance Mitigando Fraudes Corporativas”.

Um comentário sobre “As causas da Corrupção

  1. Esse assunto é muito delicado e como você aborda no seu artigo são vários pontos para tratar da corrupção, mas creio que para exterminarmos esse mal somente no berçário!

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