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Vale a pena o Rio de Janeiro sediar os Jogos Olímpicos? (1)

Começa nesta semana a 31a edição dos Jogos Olímpicos e em setembro a 15a edição dos Jogos Paralímpicos, pela primeira vez tendo como sede uma cidade da América do Sul, o Rio de Janeiro. Os Jogos são o maior evento esportivo e o mais midiático do mundo, reunindo 11 mil atletas de 206 países e atraindo 5 bilhões de espectadores. Não há muitas dúvidas de que mais uma vez será uma bela confraternização entre os povos e uma grande celebração da magia do esporte, agora tendo como cenário a cidade maravilhosa. A questão que ainda permanece no entanto é se haverá benefícios duradouros para o Rio de Janeiro em relação ao montante investido.

Até um tempo atrás era uma honra ser escolhido para sediar uma edição da Copa do Mundo ou dos Jogos Olímpicos. Ultimamente no entanto tem crescido o sentimento de que talvez não seja tão vantajoso assim. O número de candidaturas tem caído e as desistências aumentado, como ocorreram com Estocolmo, Oslo e Munique (para os Jogos de Inverno de 2022) e com Hamburgo e Boston (para os Jogos de Verão de 2024). Basicamente as populações locais consideraram que o evento não era prioridade, que os custos eram excessivos e que os benefícios econômicos eram incertos. Essa constatação levou inclusive ao Comitê Olímpico Internacional (COI) incluir na sua Agenda 2020, documento com uma série de diretrizes de modernização do movimento olímpico, que uma das prioridades é reduzir os custos de realização do evento e incentivar a utilização de estruturas esportivas pré-existentes ou temporárias.

De fato os exemplos mostram que sediar um megaevento esportivo não é certeza de legado positivo, que o otimismo dos governos ao ser escolhido é muitas vezes exagerado, e que os orçamentos de gastos são sempre subestimados (Londres-12 por exemplo teve seus custos majorados em 179%). Os resultados dependem muito das condições ali existentes e da seriedade com que o projeto é implementado. Não é a toa que existem tanto casos de extremo sucesso como Los Angeles-84 (baixo custo de implementação) e Barcelona-92 (modernização e alavancagem do turismo internacional) como de graves prejuízos como Montreal-76 (gastos exagerados e falta de planejamento) e Atenas-04 (falta de controle dos gastos e abandono das instalações).

Apesar da maioria da população brasileira ter celebrada a escolha do Rio de Janeiro como sede em 2009, atualmente a percepção dos brasileiros não é nada boa. Rio-16 vai iniciar sob grande desconfiança local: segundo pesquisa do Ibope divulgada pelo Estadão, 60% das pessoas acham que o evento trará mais prejuízos do que benefícios para o Brasil. A crise política e econômica por que passa o país, bem diferente do contexto de sete anos atrás, obviamente não contribui em nada para se ter otimismo em relação aos impactos do evento. Ainda mais tendo como sede um estado que enfrenta uma das mais graves crises financeiras do país, prevendo um déficit de R$ 20 bilhões neste ano.

Para se ter uma avaliação correta do retorno potencial de um megaevento esportivo deve se levar em conta os eventuais retornos de longo prazo e não apenas durante a sua realização. Isso porque em geral são feitos grandes investimentos em infraestrutura urbana, cujos impactos obviamente permanecem para a população local.  Além disso, há uma grande exposição do país desde o momento em que é escolhido como sede até principalmente durante a sua realização, o que pode gerar retornos futuros para a indústria do turismo.

Em linhas gerais, para a conta fechar a sede deve atender a pelo menos uma das seguintes condições: já ter infraestrutura esportiva, de hospedagem e de mobilidade urbana, reduzindo o custo de execução; ter um déficit de infraestrutura urbana que pode ser impulsionada pela realização do evento; ou ter grande potencial turístico internacional não aproveitado. O Brasil e mais especificamente o Rio de Janeiro se encaixavam nas duas últimas condições e por isso fazia sentido celebrar a decisão do COI em 2009. Vamos conferir no próximo texto se essa perspectiva ainda permanece no momento atual.